Ela chorava.
E pensava em revolucionar a tudo; tirar tudo do seu lugar. Estava difícil de se sentir bem com todos os pesos ocupando o seu espaço.
Por isso, Maria Alice enxugou as lágrimas com as próprias mãos, sujando-as com a água preta escorrida nos olhos, e não esperou a compaixão alheia.
Pegou a sua bolsa vermelha de couro sintético e foi.
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No dia anterior, além das provas nefastas da faculdade, ela provou ser mais forte do que se imaginava: terminou um namoro de quatro anos que foi um puro vai-vem, um gotejar de incômodo, de "não" e "sim" mal resolvidos.
Alice passava o tempo mais oprimida, sufocada do que amando e sentindo o amor no ar.
Mandou Fernando, o cruel "Fê", embora. Depois, engoliu o choro e com a bolsa vermelha de couro sintético, abriu a porta e foi.
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MINUTOS ANTES:
(POR LIGAÇÃO DO CELULAR)
Maria Alice: não quero mais você na minha vida!
Fernando: como assim?
Maria Alice: você pode não entender - como sempre - mas nós (gaguejou)... Nós não (nó na garganta)... Nós não podemos... Ai, meu Deus, como eu faço isso?
Fernando: Isso o que, Ma? Do que você tá falando?
Maria Alice: a gente não pode mais ficar juntos. Pra mim, o nosso namoro acabou e dessa vez não tem volta.
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MUITOS ANOS ATRÁS
Aos seis anos de idade, Maria Alice assistia às brigas diárias e violentas entre o seu pai esforçado e manso, porém, naquele momento, desempregado, e a sua mãe viciada em bingo e em casos com homens casados.
Naquele noite do abril, a pequenina chorou e soluçou muito, ao ver pai indo embora de casa, dizendo a ela, com vontade de chorar:
- Perdoe a sua mãe, mas nunca seja igual a ela. Lembre-se: perdoe a sua mãe.
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Hoje a mãe de Maria Alice ganha um gordo salário sendo secretária de um grande escritório de advocacia.
Esse salário vultuoso paga os estudos da filha tão confusa. Essa mãe há tempos não recebe uma expressão de carinho da filhota. Culpada, a dona Sandra? Pode ser.
Mas, olha o que vai acontecer na saída do escritório Lucchi & Gomes: um assalto.
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Maria Alice saía de casa com algumas malas. Ela tinha voltado do banco, no qual, sacou todo o dinheiro de sua conta para usar para o que precisasse sem ser rastreada pela polícia, quando a mãe descobrisse que ela havia ido embora de casa.
Foi até a rodoviária, naquele crepúsculo quente, e pegou um ônibus para uma cidade do interior. Sentada no seu assento confortável, enviou um SMS para a mãe: "Fui embora de casa. Adeus". E não chorou.
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Enfim, sob a brisa quente daquele início de noite, Sandra saía pomposa do escritório e foi surpreendida, no caminho até o seu carro, por um aviso:
- Me passa a chave do carro!
Então, assustada, ela estava sendo roubada por uma mulher, que também se chamava Maria Alice.
Enquanto isso, a filha que tinha acabado de terminar o namoro, ia embora para o interior.
CONTINUA...
(na PRÓXIMA SEXTA-FEIRA).
Por: Marcello Ferreira.







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